Nós cortamos os cordões umbilicais
E a decadência entorpece as memórias
Temos esperado tempo demais
Pelas promessas que não são as nossas
Não vou viver perseguindo porquês
Como elegias num livro não lido
Pois morrer em liberdade é manter
Os arrependimentos conhecidos
Quero que a calma de um luto contido
Dissipe a luz em meu cerne isolado
Quebrei-me no espelho de meu martírio
E não me permito amar aos pedaços
Uma coroa de flores sem viço
Sobre uma mente que tão pouco alcança
Que o acaso confunda meu juízo
E a nossa saudade se torne santa
O peso do egoísmo preme meus ombros
E modela a venda que me mantém cego
Faz-me adentrar o estuário que assombro
Onde a única estrutura exposta é o ego
Meus apegos se revelam a minha morte
Com asserções atadas à crise em que sigo
No infortúnio do dano, um traço de sorte
Suas quatro câmaras moldam um abrigo
Prazeres ofuscam o brilho da lembrança
Ancoram-se e tornam o sentimento efêmero
Imagem suicida, que ao fogo se lança
Corrompe-se ao toque de novos momentos
Tragédia corre dentro de minhas veias
Saliva que um deus moribundo dispensa
Misérias convêm partilhadas em teia
O amor é o arroubo de toda existência
“Uma cintilante chuva de flores desce de longínquas nuvens. A sedução do aroma permeia minhas narinas, fazendo-me absorver sua essência. As matrizes em conflito encaixam-se. Minha esperança desarraiga a pedra de sua esquecida sepultura, erguendo-se e atravessando os portões do cemitério. É estranho que compartilhemos as mesmas sutilezas. Posso identificar-me com sua confusão e colher pedaços de seus medos. Subitamente, consigo sentir o ar que inspiro, e deixo de somente expirá-lo. Estou reconstruindo meu âmago, onde as velhas e ressecadas paredes já não se harmonizam.”
“Afogo-me em mim mesmo, como se o espírito transbordasse do corpo. Ainda assim, sei que a agulha da morte procura linha. Ela vocifera sem boca, sem língua e sem garganta. Seus gemidos são silêncio. O peso de minha idade converte o passado em um sonho cada vez mais distante, degradando toda memória como a ferrugem faz ao ferro.”
“Sinta a urgência do tempo.”
Lyrics provided by LRCLIB